Sintaxe On-line

Concordância verbal

Concordância

A concordância é o processo sintático segundo o qual certas palavras se acomodam, na sua forma, às palavras de que dependem. Essa acomodação formal se chama “flexão” e se dá quanto a gênero e número (nos adjetivos – nomes ou pronomes), números e pessoa (nos verbos). Daí a divisão: concordância nominal e concordância verbal.

Concordância Verbal

Regra geral: o verbo concorda com seu sujeito em pessoa e número.

Os novos recrutas mostraram muita disposição.

Se o sujeito for simples, isto é, se tiver apenas um núcleo, com ele concorda o verbo em pessoa e número:

O Chefe da Seção pediu maior assiduidade.

A inflação deve ser combatida por todos.

Os servidores do Ministério concordaram com a proposta.

Quando o sujeito for composto, ou seja, possuir mais de um núcleo, o verbo vai para o plural e para a pessoa que tiver primazia, na seguinte ordem: a 1a pessoa tem prioridade sobre a 2ª e a 3ª; a 2ª sobre a 3ª; na ausência de uma e outra, o verbo vai para a 3a pessoa.

Eu e Maria queremos viajar em maio.

Eu, tu e João somos amigos.

O Presidente e os Ministros chegaram logo.

Observação: Por desuso do pronome vós e respectivas formas verbais no Brasil, tu e … leva o verbo para a 3a pessoa do plural: Tu e o teu colega devem (e não deveis) ter mais calma.

Analisaremos a seguir algumas questões que costumam suscitar dúvidas quanto à correta concordância verbal.

a) Há três casos de sujeito inexistente:

– com verbos de fenômenos meteorológicos:

Choveu (geou, ventou…) ontem.

– em que o verbo haver é empregado no sentido de existir ou de tempo transcorrido:

Haverá descontentes no governo e na oposição.

Havia cinco anos não ia a Brasília.

Errado: Se houverem dúvidas favor perguntar.

Certo: Se houver dúvidas favor perguntar.

Para certificar-se de que esse haver é impessoal, basta recorrer ao singular do indicativo: Se ( e nunca: *hão) dúvidas… (e jamais: *Hão) descontentes…

– em que o verbo fazer é empregado no sentido de tempo transcorrido:

Faz dez dias que não durmo.

Na semana passada fez dois meses que iniciou a apuração das irregularidades.

Errado: Fazem cinco anos que não vou a Brasília.

Certo: Faz cinco anos que não vou a Brasília.

São muito freqüentes os erros de pessoalização dos verbos haver e fazer em locuções verbais (ou seja, quando acompanhados de verbo auxiliar). Nestes casos, os verbos haver e fazer transmitem sua impessoalidade ao verbo auxiliar:

Errado: Vão fazer cinco anos que ingressei no Serviço Público.

Certo: Vai fazer cinco anos que ingressei no Serviço Público.

Errado: Depois das últimas chuvas, podem haver centenas de desabrigados.

Certo: Depois das últimas chuvas, pode haver centenas de desabrigados.

Errado: Devem haver soluções urgentes para estes problemas.

Certo: Deve haver soluções urgentes para estes problemas.

b) Concordância facultativa com sujeito mais próximo: quando o sujeito composto figurar após o verbo, pode este flexionar-se no plural ou concordar com o elemento mais próximo.

Venceremos eu e você.

– ou:

Vencerei eu e você.

– ou, ainda:

Vencerá você e eu.

c) Quando o sujeito composto for constituído de palavras sinônimas (ou quase), formando um todo indiviso, ou de elementos que simplesmente se reforçam, a concordância é facultativa, ou com o elemento mais próximo ou com a idéia plural contida nos dois ou mais elementos:

A sociedade, o povo une-se para construir um país mais justo.

– ou então:

A sociedade, o povo unem-se para construir um país mais justo.

d) O substantivo que se segue à expressão um e outro fica no singular, mas o verbo pode empregar-se no singular ou no plural:

Um e outro decreto trata da mesma questão jurídica.

– ou:

Um e outro decreto tratam da mesma questão jurídica.

e) As locuções um ou outro, ou nem um, nem outro, seguidas ou não de substantivo, exigem o verbo no singular:

Uma ou outra opção acabará por prevalecer.

Nem uma, nem outra medida resolverá o problema.

f) No emprego da locução um dos que, admite-se dupla sintaxe, verbo no singular ou verbo no plural (prevalece este no uso atual):

Um dos fatores que influenciaram (ou influenciou) a decisão foi a urgência de obter resultados concretos.

A adoção da trégua de preços foi uma das medidas que geraram (ou gerou) mais impacto na opinião pública.

g) O verbo que tiver como sujeito o pronome relativo quem tanto pode ficar na terceira pessoa do singular, como concordar com a pessoa gramatical do antecedente a que se refere o pronome:

Fui eu quem resolveu a questão.

– ou:

Fui eu quem resolvi a questão.

h) Verbo apassivado pelo pronome se deve concordar com o sujeito que, no caso está sempre expresso e vem a ser o paciente da ação ou o objeto direto na forma ativa correspondente:

Vendem-se apartamentos funcionais e residências oficiais.

Para obterem-se resultados são necessários sacrifícios.

Compare: apartamentos são vendidos e resultados são obtidos; vendem apartamentos e obtiveram resultados.

Verbo transitivo indireto (i. é, que rege preposição) fica na terceira pessoa do singular; o se, no caso, não é apassivador pois verbo transitivo indireto não é apassivável:

*O prédio é carecido de reformas.

*É tratado de questões preliminares. Assim, o correto é:

Assiste-se a mudanças radicais no País. (E não *Assistem-se a…)

Precisa-se de homens corajosos para mudar o País. (E não *Precisam-se de…)

Trata-se de questões preliminares ao debate. (E não *Tratam-se de…)

i) Expressões de sentido quantitativo (grande número de, grande quantidade de, parte de, grande parte de, a maioria de, a maior parte de, etc) acompanhadas de complemento no plural admitem concordância verbal no singular ou no plural. Nesta última hipótese, temos “concordância ideológica”, por oposição à concordância lógica, que se faz com o núcleo sintático do sintagma (ou locução) nominal (a maioria + de…):

A maioria dos condenados acabou (ou acabaram) por confessar sua culpa.

Um grande número de Estados aprovaram (ou aprovou) a Resolução da ONU.

Metade dos Deputados repudiou (ou repudiaram) as medidas.

j) Concordância do verbo ser: segue a regra geral (concordância com o sujeito em pessoa e número), mas nos seguintes casos é feita com o predicativo:

– quando inexiste sujeito (oração sem sujeito):

Hoje são dez de julho.

Agora são seis horas.

– quando o sujeito refere-se a coisa e está no singular e o predicativo é substantivo no plural:

Minha preocupação são os despossuídos.

O principal erro foram as manifestações extemporâneas.

– quando os demonstrativos tudo, isto, isso, aquilo ocupam a função de sujeito:

Isto são as possibilidades concretas de solucionar o problema.

Aquilo foram gastos inúteis.

– quando a função de sujeito é exercida por palavra ou locução de sentido coletivo: a maioria, grande número, a maior parte, etc.

Grande número (de candidatos) foram reprovados no exame de redação.

A maior parte são pequenos investidores.

– quando um pronome pessoal desempenhar a função de predicativo:

O encarregado da supervisão és tu.

O autor do projeto somos nós.

Nos casos de frases em que são empregadas expressões é muito, é pouco, é mais de, é menos de o verbo ser fica no singular:

Três semanas é muito.

Duas horas é pouco.

Trezentos mil é mais do que eu preciso.

l) A concordância com expressões de tratamento – fica na terceira pessoa do singular.

Ex: Vossa Excelência está cansada.

m) Concordância do Infinitivo

Uma das peculiaridades da língua portuguesa é o infinitivo flexionável: esta forma verbal, apesar de nominalizada, pode flexionar-se concordando com o seu sujeito. Simplificando o assunto, controverso para os gramáticos, valeria dizer que a flexão do infinitivo só cabe quando ele tem sujeito próprio, em geral distinto do sujeito da oração principal:

Chegou ao conhecimento desta Repartição estarem a salvo todos os atingidos pelas enchentes. (sujeito do infinitivo: todos os atingidos pelas enchentes)

A imprensa estrangeira noticia sermos nós os responsáveis pela preservação da Amazônia. (sujeito do infinitivo: nós)

Não admitimos sermos nós… Não admitem serem eles…

O Governo afirma não existirem tais doenças no País. (sujeito da oração principal: o governo; sujeito do infinitivo: tais doenças)

O infinitivo é inflexionável nas combinações com outro verbo de um só e mesmo sujeito – a esse outro verbo é que cabe a concordância:

As assessoras podem (ou devem) ter dúvidas quanto à medida.

Os sorteados não conseguem conter sua alegria.

Queremos (ou precisamos, etc.) destacar alguns pormenores.

Nas combinações com verbos factitivos (fazer, deixar, mandar…) e sensitivos (sentir, ouvir, ver…) o infinitivo pode concordar com seu sujeito próprio, ou deixar de fazê-lo pelo fato de esse sujeito (lógico) passar a objeto direto (sintático) de um daqueles verbos:

O Presidente fez (ou deixou, mandou) os assessores entrarem (ou entrar).

Sentimos (ou vimos, ouvimos) os colegas vacilarem (ou vacilar) nos debates.

Naturalmente, o sujeito semântico ou lógico do infinitivo que aparece na forma pronominal acusativa (o,-lo, – no e flexões) só pode ser objeto do outro verbo:

O Presidente fê-los entrar (e não *entrarem)

Sentimo-los (ou Sentiram-nos, Sentiu-os, Viu-as) vacilar (e não *vacilarem).

CONCORDÂNCIAS QUE MERECEM DESTAQUE

01. SUBSTANTIVOS  PRÓPRIOS NO PLURAL

Quando o sujeito é formado por nomes que só têm plural, se não houver artigo antes do nome, o verbo fica no singular.

Flores não recebe mais acento.

Se houver artigo antes do nome, o verbo vai para o plural.

Os Estados Unidos impuseram uma ordem mundial.

As Minas Gerais são inesquecíveis.

Obs: quando se tratar de obra literária, o verbo poderá ficar no singular.

Os Lusíadas são / é  o maior poema épico português.

02.  PRONOMES RELATIVOS “QUE / QUEM” COMO SUJEITOS

Quando o sujeito for o pronome relativo QUE, o verbo concordará  com o antecedente do que.

Fui eu que fiz tudo isso.

Quando o sujeito é o pronome relativo QUEM, pode-se utilizar o verbo na 3a pessoa do singular ou concordá-lo com o sujeito do verbo “ser”.

Somos nós quem pagamos. / Somos nós quem paga.

03. CONCORDÂNCIA COM PERCENTUAIS

Quando o sujeito for indicação de uma porcentagem seguida termo preposicionado, a tendência é fazer a concordância com esse termo que especifica a referência numérica.

1% do orçamento do país deve  destinar-se à educação.

85% dos entrevistados declararam impostos.

99% da população brasileira assistiu à Copa do Mundo.

Se a porcentagem for particularizada, o verbo concordará com ela:

Os 99% da população assistiram à Copa do Mundo.

Aqueles 45% de eleitores estão indecisos.

04. NÚMEROS FRACIONÁRIOS

Quando o sujeito é um número fracionário, o verbo concorda com o numerador.

Anulou-se 1/5 da prova de matemática.

Anularam-se 2/5 da prova de matemática.

05. PRONOMES DE TRATAMENTO COMO SUJEITO

O verbo fica na 3ª pessoa.

Vossas Excelências desejam algo?

06. SUJEITOS RESUMIDOS POR TUDO / NADA /NINGUÉM

O verbo concorda no singular.

Carros, viadutos, pontes, tudo foi destruído pelo terremoto.

07. UM OU OUTRO

O verbo concorda no singular com o sujeito um ou outro.

Um  ou outro caso será resolvido.

Uma ou outra candidata saiu-se bem.

ESTRUTURAS VERBAIS   FORMADAS    COM   A    PARTICIPAÇÃO   DO PRONOME “SE”:

A) Quando atua  como índice de indeterminação do sujeito, o “se” acompanha verbos intransitivos, transitivos indiretos e de ligação, que devem obrigatoriamente estar na 3a pessoa do singular.

Aos domingos, ia-se sempre à praça.

Precisa-se de pedreiros.

B)  Quando  atua  como  pronome apassivador, o “se” acompanha verbos transitivos diretos e transitivos diretos e indiretos na formação da voz passiva sintética. Nesse caso , o verbo concorda com o sujeito da oração.

Construi-se uma nova praça no bairro.

Construíram-se novas praças no bairro.

O  VERBO “SER”

A)  Estando entre dois substantivos de números diversos, o que orientará  a concordância será o sentido da frase, ou seja, o verbo “ser” concordará  com o termo a que se quiser dar mais ênfase.

O horizonte de sucesso são cordilheiras transpostas.

B) O sujeito sendo nome de pessoa, com ele concorda o verbo ser.

Mário era só alegrias.

C)  Concorda  com  o predicativo quando o sujeito for um dos pronomes tudo, isso, isto, aquilo,  o.

Tudo eram alegrias naquela noite.

Também é uma forma aceita segundo a norma padrão:

Tudo é flores, mas o mais comum é Tudo são flores

D) Quando um dos dois termos – sujeito ou predicativo – for pronome pessoal, faz-se a concordância com este pronome:

Todo eu era olhos e coração.

O Brasil, senhores, sois vós.

E) Nas  expressões  que  indicam   quantidade, medida, peso, preço, valor (é muito, é pouco, é suficiente, é mais que, etc.), o verbo ser é invariável:

Dois quilos é pouco.     /       Vinte mil reais  é bom.

F)  Nas    indicações    de    tempo,    horas,   datas   e distâncias, o verbo ser  é impessoal e concorda com a expressão numérica que o acompanha.

São duas horas.

Hoje é dia cinco de março.

Hoje são cinco de março.

Daqui para minha casa são três quilômetros.

O VERBO “HAVER’

Quando indica existência ou acontecimento, é impessoal e permanece na 3ª pessoa do singular.

Ainda há pontos obscuros nessa versão.

Deve ter havido pontos obscuros naquela versão.

HAVER / FAZER / CHOVER

São impessoais quando indicam tempo decorrido. Neste caso, permanecem na 3a pessoa do singular.

Há anos que não o vejo.

Faz anos que não o vejo.

Choveu durante vários dias.

BATER, SOAR, DAR

Referindo-se às horas, os três verbos acima concordam regularmente com o sujeito. Se não houver sujeito, concorda com o numeral.

Nisto, deu três horas o relógio da botica.

Soaram dez horas nos relógios das igrejas.

PARECER

Em construções com o verbo parecer seguido de infinitivo, pode-se flexionar o verbo parecer ou o infinitivo que o acompanha.

As paredes pareciam estremecer.

As paredes parecia estremecerem.

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